Triunfo

Ipuarana

Taquaritinga do Norte

Gravatá

 

Ipuarana
 Ao vencedor, as traças!

Ao vencedor, as traças!
Clotário Dantas

ClotárioCom o “juízo” mais descansado, numa fase de transição entre o ócio e eventual atividade vindoura, comecei a repassar fatos que marcaram minha passagem , e certamente de outros colegas, por Ipuarana.

Ocorreu-me uma definição de Frei Paulo Kleinken, mestre de minha classe, sobre Cultura, como sendo o que restar da imensidão das informações que recebemos. Já de Frei Manfredo Pantenburg ouvi pela primeira vez o “Forsan et haec olim meminisse iuvabit” de Virgílio, provavelmente em artigo que preparou para a revista “Juventude Franciscana”.

Mas agora minha memória focou mais insistentemente o tema “livros”, “literatura”, “biblioteca”, e imediatamente apareceu a figura querida, respeitada e temida de Frei Adriano Hipólito e suas substanciosas aulas de língua e literatura portuguesas.

Vejo-o, com nitidez, falar com entusiasmo e autoridade sobre Machado de Assis, um dos luminares da literatura, pessimista, “cabra”, sem descendentes, num dos livros declara algo parecido a não ter “transmitido a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”, em outro filosofa “mortifica os pés, desgraçado, desmortifica-os depois, e aí terás a felicidade perfeita”, ou também “ao vencedor, as batatas!”

Ou ainda, outros ícones como Gilberto Freire, que ele situava lá em Apipucos, e cuja condição de ateu em nada empanava-lhe a admiração pela importância no cenário cultural, encabeçada pela sempre citada “Casa Grande & Senzala”, densa, cheia de meandros, mas muito perto da gente; especial afeto era dedicado a Manoel Bandeira, de Minas, que tinha um vulto esguio de tuberculoso e a cabeça fina lembrando um palito de fósforo, o homem que ia embora pra Pasárgada pois lá era amigo do rei, o autor de “Irene Preta, Irene boa, Irene sempre de bom humor” que, musicada pelo mesmo Frei Adriano, causava sucesso quando executada pelo coral; ainda de Minas era muito bem visto Carlos Drummond de Andrade, cuja aparência não diferia em muito daquela de Bandeira; poeta maior porém não tão dissecado.

Dois paraibanos ilustres eram focados nas aulas de Frei Adriano: José Américo de Almeida, que inicialmente chamava-me a atenção por seu peso político e por uma espécie de mito que existia em torno de si, sem todavia afetar seu papel de relevo na literatura, cujo carro chefe era “Bagaceira”, ou o drama da seca na vida de famílias pobres; do ciclo da cana de açúcar, Jose Lins do Rego e “Menino de Engenho”.

José de Alencar estava um pouco abaixo no meu conceito, onde figurava como açucarado, melífluo romântico, meio fora da realidade, “além, muito além daquela serra “; mas ficou em definitivo gravado em minha lembrança por “Lucíola” que li às escondidas e em plena “idade crítica”, uma verdadeira aventura cheia de sobressaltos nem sempre justificados, pois consegui chegar incólume ao final; incólume, mas de coração amolecido de tal forma a passar à “Pata da Gazela”, “Diva” e, claro, “Iracema”.

Na literatura de vanguarda, lembro-me de Guimarães Rosa, que escrevia de forma desabusada, com regionalismos de suas Minas Gerais e fiquei com “Grandes Sertões-Veredas” na lembrança, mas gostoso mesmo, diferente mesmo, era “Dona Guidinha do Poço”, um livro não muito encorpado, de capa clara e letras em negrito, espaço duplo, fácil de ler e encantador pela forma totalmente inovadora; não lembro de Frei Adriano falando sobre o autor Oliveira Paiva e sua obra.
Dentre os grandes portugueses, Eça de Queirós, o homem da Póvoa do Varzim, atraía-me enormemente pela forma cativante de descrever e contar, com recursos lingüísticos encantadores que jamais pareciam enchimento para subitânea ausência de linha de pensamento. Causava-me certo ranço uma tendência esnobe ao descrever suas andanças por Paris, talvez em contraste com a simplicidade de sua terrinha ou até mesmo de Lisboa, seu apartamento ornado por tapetes orientais e servido por mordomo e governanta, seu robe-de-chambre e pantufos, as conquistas amorosas, os charutos e os vinhos; além disso, detestava seu manifesto anti-clericalismo, em voga entre os literatos de seu tempo. “O Crime do Padre Amaro” e “A Relíquia”, alinhava-os como desrespeitosos às convicções da época, minhas e dele. Mas, repelido mesmo era Guerra Junqueira pelo título de uma de suas obras, “A Velhice do Padre Eterno” que nunca atrevi-me a procurar; preferia, antes, dar uma boa olhadela em “Eurico, O Presbítero”, onde Alexandre Herculano narrava as desditas amorosas que culminaram com sua transformação no Cavaleiro Negro quando os mouros invadiram a Espanha, mas também por causa de Frei Aurélio, nosso Frei Aurélio Soares de Aquino, exímio violinista, cujo nome civil coincidia com o do herói presbítero. Também, Camilo Castelo Branco tratando da transcendência da morte em “Amor de Perdição”.

Na categoria dos massudos, pesados, ganhava de longe Euclides da Cunha com “Os Sertões”, cuja leitura jamais consegui terminar, nem mesmo lembro se consegui ler umas 30 páginas, apesar das inúmeras preleções adrianinas. Fazer o quê?

Dentre os “perigosos” que tentei ler sem sucesso, pontificavam os tenebrosos Júlio Ribeiro e “A Carne”, e outro Júlio, o Dinis, com “As Pupilas do Senhor Reitor”.

Das aulas de Frei Silvério, permanecem Francisco Varnhagen e Frei Vicente do Salvador, o primeiro dedicado ao descobrimento e o segundo, à história do Brasil.

A maioria desses livros estava disponível na Biblioteca, vizinha ao refeitório, numa área que poderia ser denominada de estratégica, pois dividia os claustros dos pequenos e médios, continha uma área de comunicação com o mundo, onde se ouvia o “Repórter Esso”,falando de Pernambuco para o Mundo em duas apresentações diárias, e também uma “zona neutra” entre os dois claustros, onde era possível ler artigos da revista “O Cruzeiro”, quase sempre concentrando em David Nasser, ler as brincadeiras e fofocas trazidas pelo “O Bocão” e, por último e por ser o pior, encontrava-se aos sábados a famosa escala de tarefas e respectivas “vítimas”, para varrer os claustros, limpar os sanitários, cortar grama, e outras mais.

Escapa-me da memória quem comandava a Biblioteca, se aluno ou irmão leigo, mas continua bem vivo o aspecto dos livros, encadernados à maestria por Frei Fidelis; o cheirinho característico dos volumes, derivado certamente de algum produto para combater a traça; os livros de Machado de Assis eram os mais populares na seção de literatura, acho que começando por “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “Dom Casmurro”, “Esaú e Jacó”. O carimbo inconfundível utilizado para os livros de propriedade do seminário, assimilava-se ao carimbo dos Correios, circular, trazendo ao centro a familiar efígie de Santo Antônio com o Menino em um dos braços e o indefectível ramo de lírios na outra e, na borda interna do círculo “Sig. Sem. Franciscani Ipauaranensis Scti.Antonii”. O serviço de empréstimo funcionava muito bem e eram bem conhecidos termos como “Leitura Particular” e “Index Librorum Prohibitorum”.

Além das obras da literatura Brasil/Portugal, havia diversos outros gêneros; podendo-se mencionar autores que eram requisitados nos retiros anuais ou por recomendação do Diretor Espiritual; especial realce era dado a Mons. Tihámer Toth, húngaro, com o “Moço de Caráter”, Pe. João Mohana, médico e escritor maranhense com “A Vida Sexual dos Solteiros e Casados”, “Imitação de Cristo”, também disponível em alemão – “Nachfolge Christi”, de Thomas Von Kempis. Desses, o que mais me impressionava era o Mons. Tihámer Toth, que tinhas alguns outros títulos na Biblioteca: pela força da linguagem com que alertava os jovens quanto aos perigos dos pecados contra a castidade.

No front profano, posso mencionar Karl May – imbatível em seu gênero, com “Winnetou”, “Old Shatterhand,Nas Terras do Mahdi”, e muitos outros títulos. “O Tesouro da Juventude”, em volumes enormes, com uma pletora de informações interessantes, curiosidades, e outras; a coleção completa, ou quase, de Arthur Conan Doyle com o perspicaz Sherlock Holmes e seu assistente Watson, lutando contra Mr. Moriarty, inimigo número um, e as aventuras contidas em “O Cão dos Baskervilles”, “Um Estudo em Vermelho”, “Memórias de Sherlock Holmes”.

Atração à parte eram os volumes “A Volta ao Mundo em 80 dias”, “Viagem ao Centro da Terra” e “20.000 Léguas Submarinas” do fabuloso Julio Verne, cuja imaginação, ou premonição, descrevia com tanta propriedade as maravilhas a serem criadas pelo gênio humano, ainda em futuro distante.

Dois outros livros ficaram marcados em minha memória a partir do momento em que foram lidos, um pouquinho a cada refeição: “Por Dúzia É Mais Barato”, acho que de um certo Peter Schlemill, defendendo, de forma engraçadíssima, que era mais barato ter uma família de 12 filhos; o outro, era de Paulo Setúbal, intitulado “Nos Bastidores da História”, narrando, entre outras, as peripécias da Marquesa de Santos e seu real parceiro.

Outro que cativava “as multidões” chamava-se a “Vingança do Judeu”, livrinho de pequenas dimensões, gordinho, narrando os sofrimentos de um israelita e a volta por cima no final – era eletrizante acompanhar a briga do bem contra o mal e, claro, assistir a vitória do primeiro!
Voltando deste passeio tipo “traça de livros” a Virgílio pela boca de Frei Manfredo, “talvez seja útil em algum momento recordar essas coisas”, até porque, na voz de Frei Paulo, o que sobrar de tudo o que você aprendeu será a cultura que você poderá repassar; a quem não foi a Ipuarana. A quem foi, recicla-se.

Por final, “ao vencedor, as traças!”

Fortaleza, maio de 2004, © Clotário Dantas